Luís Machado 

Prémio Nobel da Literatura para Kazuo Ishiguro (2017)
Grande Prémio de Poesia “Teixeira de Pascoaes” APE/C.M. de Amarante
Programa:
16h.00m. - Sessão Solene de entrega do Grande Prémio de Poesia Teixeira de Pascoaes
ao poeta Luís Quintais - Paços do Concelho.

Biblioteca Municipal Albano Sardoeira - descerramento de placa alusiva.
Foto de Fernando Bento
O José Correia Tavares, Vice-Presidente da APE, exerceu com esmero e ético aprumo uma função nunca dissociada dos sócios, tanto na relação com cada um como na defesa dos interesses colectivos. Inclusivo, atento, generoso, acolhia quem chegava segundo uma regra de cordialidade sem cálculo. Acudia-lhes, quando necessário, a troco de nada: na revisão de um texto, nos juízos pertinentes sobre originais, nas soluções que encontrava para circunstâncias difíceis. Dou testemunho, o testemunho incisivo do velho companheiro, como podem dá-lo os membros dos órgãos sociais e, pelo convívio estreito, a Maria Seizete, a Paula Trindade, que aí estão, nas quais tanto me revejo também.
Tendo pertencido a numerosos júris, amiúde enquanto coordenador, adquiriu o prestígio do homem culto, competente, infatigável e sério cujas escolhas, pela clarividência e por uma ponderação buscando o melhor dos escritos sob escrutínio, acabavam por revelar-se as menos prescindíveis. Estivemos juntos numas quantas mesas de veredicto. Nenhuma dúvida no que afirmo. Como nenhuma dúvida tenho (apetece o plural: temos) a propósito das mil formas com que, aquém e além dos desacordos, quem não viveu essa experiência tão inerente à dialogia e aos processos de acção em grupo?, nos enriqueceu a humana viagem a caminho do ocidente, ande por agora longe ou perto o cabo de finisterra. Guardo, guardamos dele as estórias, os dizeres certeiros, o humor terno e corrosivo, as manifestações satíricas (acima de tudo em matérias da política fátua e primária, dos costumes e taras sociais), os repentes de uma espécie de ira furtando-se ao rancor, a vastíssima gama dos instantes de amenidade, bonomia, inquietação com as nossas saúdes (Cuida de ti, ouvia eu, ouvíamos, a expressão contristada), regalos - regalos, sim, basta que recordemos as ofertas de pequenas preciosidades sem porquê -, o riso agregador, o instinto solidário diante dos injustiçados. Uso um vocábulo que enuncia na perfeição o seu apego irredutível à ideia de Justiça, à liberdade, jamais instrumental, ao humanismo dos elos decisivos.
O Correia Tavares, José Correia de Jesus Tavares
(desculpa, chamava-te Zé, apenas uma sílaba, uma sílaba sem igual, e tu preferiste o Zé Manel logo no início, só os muito íntimos me tratam dessa maneira, verás porque recorro ao teu nome por extenso), foi sempre um cidadão íntegro, que não confundiu nem tolerou que tentassem confundi-lo, e um poeta singularíssimo, como os seus apurados livros demonstram. Aí estão, com prefácios de autores por si convidados na base do apreço e da gratulação, a par da qualidade de leitura, uma instância regulada à margem dos cálculos comerciais ou do elogio fácil. Estão, constituem proeminência e resíduo do que em si se achava esculpido no magma essencial. Faltam alguns, que concluíra, o último dos quais (magnífico a avaliar pelas quadras que me leu ao telefone nas duas semanas antes do acidente vascular) volvia às incisões de uma atmosfera rememorativa, genealógica, familiar, presente no belíssimo Velhos são os caminhos, fala-verso da mãe nonagenária e sem estudos, com relevo para o amor a Maria José, amor-raiz, amor no absoluto, na partilha e interdependência, Maria José que há uma semana perdemos, e à querida Natércia, querida de seu pai, por mim, por nós querida, que agora abraço em pleno enlace de dor e afectividade.
O José Correia Tavares radicará doravante, vivido o luto, no melhor que, iluminados pelo seu percurso, empreendermos. Ele teve sempre uma Casa de duas folhagens, aquela em que morava, ali à Junqueira, e a APE. Não saberemos agradecer-lhe o legado imenso distantes das lições da sua vida. Ser-lhe-emos um prolongamento plural. E comovidamente adstrito. Até breve: até logo, até amanhã, dilecto amigo.

José Manuel Mendes

(Este texto foi lido por Luís Machado no funeral, uma vez que o presidente se encontrava à mesma hora em Amarante, em nome da APE, no acto de entrega do Grande Prémio de Poesia Teixeira de Pascoaes)
                             José Correia Tavares

O José Correia Tavares era uma personalidade incomum. Não só pelos talentos, modos, trajectos criativos. Não só por essa dádiva sem fim à Associação que também ajudou a fundar. Num tempo hirsuto, ao lado de quantos, desde José Gomes Ferreira (à luz de Aquilino, entre mais), lhe deram a configuração que assumimos e prolongaremos no interior da comunidade cultural. Não só na arte de conceber, afeiçoar - sem nunca prescindir de um acurado sentido crítico -, pôr em movimento, na Sede ou fora dela, em vários lugares do quotidiano das Letras, projectos que honram a instituição à qual pertencemos. Digo, por exemplo, Grande Prémio de Romance e Novela e sei que, assim, torno peculiar a evidência do seu rosto: escrúpulo, critério, trabalho meticuloso, um jeito nas sessões que ninguém deixava ou deixará de destacar. Não, não só estes traços de uma jornada pública, tantas vezes sem que a procurasse ou dela fizesse o mínimo alarde.
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